FUNDIS / Apresentação / Os Pergaminhos Avulsos da Biblioteca Pública de Évora: uma abordagem recente (2009)

O núcleo documental

Tal como acontece noutras instituições detentoras de fundos documentais de cariz histórico e cultural, também a Biblioteca Pública de Évora (BPE) possui um conjunto documental em suporte de pergaminho, cujas peças foram produzidas ao longo de séculos por diferentes instituições, não só da cidade de Évora, mas também de outras localidades do Alentejo.

Fontes documentais por excelência para a história medieval o núcleo de Pergaminhos Avulsos da BPE cobre um período cronológico que vai do século XIII ao século XIX e possui 2311 peças que contêm cerca de 3000 documentos. Aquelas encontram-se distribuídas aleatoriamente por 26 pastas, não possuindo qualquer organização quer em termos de instituições produtoras quer em termos cronológicos. Note-se, porém, que fazem parte deste conjunto alguns documentos em suporte de papel que aí foram incluídos, sem que se perceba, hoje em dia, a lógica que presidiu a essa opção.

Os pergaminhos apresentam diversos tamanhos e formatos, com alguns em forma de caderno. Uma pequena parte está em mau estado de conservação, nunca tendo sido alvo de qualquer tratamento ou restauro. Tais condições dificultam a leitura destes documentos, chegando a impossibilitá-la nalguns casos, situação que se agrava com a passagem do tempo, tornando urgente a salvaguarda quer do suporte e, através dele, do texto original, quer do seu conteúdo informativo através da utilização das novas tecnologias: digitalização e descrição em base de dados.

Possuidores de diferentes tipologias documentais, a grande maioria dos textos aí redigidos encontra-se em português, embora muitos deles se apresentem em latim (mais de 300) e, pontualmente, em castelhano.

Apesar de já terem sido feitas abordagens anteriores aos Pergaminhos Avulsos da BPE estas foram parciais. Concretizando: em 1941, Luís Silveira fez uma inventariação dos documentos produzidos exclusivamente pela igreja de São Pedro de Évora1; em 1998, O CIDEHUS-UÉ, no âmbito do projecto “Formação das elites e redes clientelares. Uma observação centrada em Évora (séculos XIV-XV)”, financiado pela FCT, encetou o levantamento, em fichas manuscritas, dos Pergaminhos Avulsos da BPE que, no entanto, na altura não foi possível concluir. Porém, na sequência do mesmo, em 2005, Joaquim Serra, publicou um artigo na revista Lusitânia Sacra, onde apresenta uma caracterização geral dos pergaminhos da BPE, salientando as potencialidades de investigação dos mesmos2; em 2006, Manuel Branco iniciou a publicação, na revista Almansor, dos documentos que, dispersos por este conjunto documental, foram produzidos por instituições de Montemor-o-Novo3.

Todavia, apesar deste núcleo sempre ter despertado o interesse dos investigadores, e de já ter sido alvo de diversas pesquisas, as condições em que se apresenta tornam difícil a sua consulta, pois aquelas obrigam à procura exaustiva, em todas as pastas, dos documentos referentes ao tema e ao período cronológico em análise. Na qualidade de investigadores do CIDEHUS-UÉ, a solução encontrada para obviar a tais circunstâncias foi a de integrar a descrição documental dosPergaminhos Avulsos da BPE numa base de dados disponível on-line. Deste modo, preservar-se-á o conteúdo informativo destes documentos, proporcionando em simultâneo uma maior acessibilidade das fontes aos investigadores e a divulgação de um conjunto documental imprescindível para a História do Alentejo e de Portugal. Note-se, porém, que, neste momento, a introdução dos Pergaminhos Avulsos da BPE na FUNDIS ainda não se encontra concluída. Além disso, ainda não foi posta em prática a funcionalidade que permite disponibilizar as imagens digitais dos documentos aqui descritos através de uma colaboração com a Biblioteca Pública de Évora.

 

Critérios de descrição e potenciais usos historiográficos

Apesar de as peças se encontrarem fisicamente reunidas sem ter em conta os princípios fundamentais da arquivística, ou seja, sem respeito pela proveniência dos documentos ou pela sua ordem original, tais princípios estiveram presentes à lógica de descrição das mesmas na base de dados. Assim, reconstituíram-se virtualmente os fundos documentais originais das instituições produtoras encontradas entre os Pergaminhos Avulsos. Saliente-se, no entanto, que não é possível a reconstituição total dos fundos documentais das instituições aí encontradas – a partir, exclusivamente, deste núcleo – porque aqueles se encontram dispersos por várias bibliotecas e arquivos nacionais. Acreditamos que no futuro será possível completar a descrição destes fundos documentais com a inclusão de outros documentos a eles pertencentes.

Todavia, alguns documentos não permitiram identificar a sua instituição de origem, uma vez que consistem em contractos sobre bens imóveis, realizados entre particulares, que deverão ter entrado nas diversas instituições por via da aquisição posterior, por parte das mesmas instituições, do património aí contratualizado. Assim, optou-se por descrever esses documentos adstritos aos tabeliães que os produziram em diversas localidades, uma vez que, eles próprios se revestem de um cariz institucional. Contudo, não é de todo impossível que, no futuro, através do cruzamento de dados presentes no conteúdo informativo dos documentos já descritos na base, se possa vir a transferir esses documentos para o interior da descrição dos fundos documentais a que pertenceram no passado.

No que respeita aos conteúdos, encontram-se neste fundo elementos de estudo para diferentes localidades do Alentejo e também para outras regiões de Portugal. Encontram-se, igualmente, informações para a história de diferentes instituições laicas e religiosas. Estas podem servir diversos campos de investigação tais como a economia, a história social do poder e da administração; a cultura e a mentalidade; a vida quotidiana; a história urbana e a toponímia; o tabelionado; a paleografia, a diplomática, a sigilografia, a iluminura e as grafias.


Dezembro de 2009


Fátima Farrica

Francisco Segurado

 

1 SILVEIRA, Luís, Pergaminhos da Colegiada de S. Pedro, Évora, Câmara Municipal, 1941.

2 SERRA, Joaquim Bastos, “Instituições Religiosas e Dinâmica Urbana nos ‘Pergaminhos Avulsos’ da Biblioteca Pública de Évora”, Lusitania Sacra, 2ª Série, tomo XVII, 2005, pp. 405-418.

3 BRANCO, Manuel J. C., "Subsídios documentais para a história de Montemor (século XIV)", Almansor: Revista de Cultura,2ª Série, nº 5, 2006, pp. 171-265 e Idem, "Subsídios Documentais para a História de Montemor (século XV)", Almansor: Revista de Cultura, 2ª Série, nº 6, 2007, pp. 91-218.